15/março/2004
Gaseificação de carvão na planta de Wabash River
Uma das grandes preocupações dos engenheiros no projeto de uma termelétrica é a questão da poluição ambiental. O uso de combustíveis sólidos, como o carvão e o coque de petróleo, tende a levar a elevadas taxas de emissões de compostos de enxofre e material particulado, que devem ser estritamente regulamentados pelos órgãos do governo.
A opção natural, uso do gás natural, frequentemente se prova muito cara, dependendo da região onde a termelétrica deva se localizar. Uma alternativa encontrada pelos engenheiros da Dynegy e da PSI Energy foi a de gaseificar o carvão e utilizar o gás sintético como combustível. É o chamado processo IGCC (Integrated Gasification Combined Cycle).
A planta de Wabash River em West Terre Haute, Indiana - EUA, opera em um ciclo combinado de 261 Mw
e sendo gerados por um turbogerador a gás de 192 Mw
e da General Eletric e um turbogerador a vapor de 104 Mw
e da Westinghouse. O sistema conta com uma caldeira de recuperação (HRSG) da Foster Wheeler. O gás combustível é gerado em um gaseificador de fluxos reativos a carvão/coque com injeção de oxigênio e água. Os ciclos combinados, que antes eram predominantemente utilizados com combustíveis gasosos, podem ser aplicados a combustíveis de origem sólida.
O projeto de revitalização e instalação da tecnologia de gaseificação foi uma parceria público-privada (PPP) entre a PSI Energy, a Dynegy e o Departamento de Energia dos EUA (DOE), sendo que o DOE financiou metade do projeto e as duas empresas participantes a outra metade. O objetivo do projeto era modificar uma termelétrica a carvão de 1952, que gerava 90 Mw
e com 33% de eficiência e transformá-la em uma termelétrica que gerasse 261 Mw
e, com 40% de eficiência (referida ao PCS) e uma taxa de 2000 kcal/kWh.
Nessa usina, ao carvão/coque moído é adicionada água, criando-se uma lama, que então é injetada em um gaseificador de duplo estágio, que opera a 1400°C e 28 bar (g). No primeiro estágio, a lama é parcialmente oxidada, a uma temperatura suficientemente alta para liquefazer as cinzas presentes no combustível, que são retiradas e resfriadas a água, formando-se uma escória vítrea. No segundo estágio, o
syngas (sigla em inglês para synthetic gas) entra em contato com uma quantidade adicional de lama de combustível. Este é então pirolisado numa reação endotérmica com o
syngas, para elevar o poder calorífico deste e incrementar a eficiência do processo.
Seguindo, o
syngas passa por um resfriador, que nada mais é do que um gerador de vapor flamotubular, que produz vapor saturado a alta pressão. Após o resfriamento, o gás passa por um filtro e tem o material particulado retirado. Em seguida, ele passa por um tratamento para remoção de enxofre.

Ilustração: LOS ALAMOS NATIONAL LABORATORY
O gás limpo é então aquecido e alimentado no turbogerador a gás, gerando eletricidade. Os gases quentes de escape da turbina a gás vão para a caldeira de recuperação. O vapor gerado nesta caldeira é misturado ao vapor gerado pelo resfriador do
syngas e enviado para a turbina a vapor, gerando mais eletricidade.
Em termos de emissões, a planta atinge níveis abaixo de 0.2 kg de SO
2/ 106 kcal, chegando a 0.06 kg de SO
2/ 106 kcal. Os óxidos de enxofre presentes após a gaseificação são 99,99% transformados em enxofre elementar, um subproduto de alto valor agregado. As emissões de NOx ficam na faixa de 0.5 kg / Mwh, abaixo do limite de 0.72 kg / Mwh, estabelecido por agências reguladoras.
A emissão de material particulado está abaixo de limites detectáveis. A emissão de CO é de cerca de 0.09 kg / 106 kcal, dentro dos limites aceitáveis na indústria. Já a escória coletada é vendida para construtoras e cimenteiras para ser agregada a seus produtos.
O custo total da renovação da planta foi de aproximadamente US$417 milhões, que equivale a aproximadamente 2000 US$/kW, ao dólar de 2004. Um projeto convencional com padrões de emissões equivalente custaria em torno de 2140 US$/kW. Levando em conta o conhecimento adquirido, e as lições aprendidas, o mesmo projeto, hoje, poderia custar cerca de 1500 US$/kW.
Alguns ciclos combinados a gás natural podem apresentar eficiências da ordem de 60% e custos de implantação de cerca de US$ 500/kW intalado. Por sua vez, os ciclos IGCC podem chegar a 40% de eficiência e custos de implantação de US1500/kW instalado. O grande diferencial em favor da alternativa IGCC está nos custos operacionais extremamente competitivos devidos ao preço do combustível sólido poder atingir um valor correspondente a apenas 10% do preço do gás natural (base térmica). Adicionalmente, a venda de subprodutos, como a escória e o enxofre, podem tornar este tipo de instalação não só tecnicamente viável, com uma alternativa de investimento interessante.